Como a alimentação influencia tontura e zumbido

Erros alimentares e várias doenças metabólicas, como diabetes, anemia, aumento de colesterol e falta de vitaminas e minerais, afetam o funcionamento da orelha e causam sintomas de tontura, zumbido, mal estar ,sensação de ouvido entupido e de cabeça ruim. Neste post vou detalhar porque isso ocorre e como evitar essas doenças, mas se você quiser uma leitura mais rápida sobre este tema, clique aqui.

O QUE SÃO DOENÇAS METABÓLICAS?

Doenças metabólicas são aquelas causadas por alterações do açúcar (glicose), da gordura (colesterol e triglicérides) e das proteínas do nosso corpo, além dos hormônios, das vitaminas e minerais envolvidos nos processos de absorção, degradação e armazenamento dos nutrientes acima. Considerando que os erros alimentares na sociedade moderna parecem ser a regra e não a exceção, além de  habitualmente estarem associados a estresse, ansiedade, sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo, as doenças metabólicas do ouvido  são cada vez mais comuns. 

Diversas condições afetam o funcionamento da orelha interna, como distúrbios do metabolismo de carboidratos -diabetes, aumento de insulina, intolerância a lactose e outros açúcares; hiperlipidemia -aumento de colesterol e triglicérides; distúrbios da tireóide; alterações de cortisol -estresse ou doenças da glândula supra-renal; além de alterações do zinco, outros minerais, vitaminas D e B12 e erros alimentares. Elas podem levar a sintomas tanto de tontura quanto de zumbido.

SINTOMAS DE ALTERAÇÕES METABÓLICAS NO OUVIDO

O paciente pode abrir o quadro com uma crise clássica de vertigem, já descrita no post sobre síndrome de Menière, mas os sintomas mais comuns são sensação de pressão na cabeça, de ouvido entupido, de andar na nuvens ou pisar em ovos, zumbido, tontura tipo flutuação ou cabeça oca. Frequentemente esses sintomas estão associados a intolerância a sons, dificuldade de concentração, tendência a obesidade , irritabilidade , sonolência matinal, visão turva,  e enxaqueca.

DIAGNÓSTICO DE ALTERAÇÕES METABÓLICAS NO OUVIDO

O diagnóstico é feito através dos exames de sangue, sendo que os mais importantes são hemograma, curva glicoinsulinêmica, colesterol total e frações, triglicérides, TSH, t4 livre, vit D, vit B12, hormônios, cortisol, zinco, magnésio, que em sua maioria já são realizados no  check-up anual. Os testes otorrinolaringológicos também fornecem pistas de causa metabólica. A audiometria, por exemplo, mostra a chamada curva em U invertido (perda auditiva apenas em sons muito graves ou muito agudos), mas, com o passar do tempo, pode haver perda auditiva em todas as frequências auditivas. Na vectoeletronistagmografia, é comum ocorrer hiperrreflexia vestibular, que significa que o labirinto está reagindo exageradamente a estímulos inócuos.

Fig 1- Audiometria com configuração em U invertido, típica de doenças metabólicas.
Fig 1- Audiometria com configuração em U invertido, típica de doenças metabólicas. 

TRATAMENTO DE ALTERAÇÕES METABÓLICAS NO OUVIDO

O tratamento é feito de forma multidisciplinar, com nutricionista, que indicará dieta adequada, endocrinologista, no caso de doenças e necessidade de medicação, e educador físico, para acompanhar exercícios físicos, que devem ser regulares e adequados para cada paciente. Normalmente, o tratamento é curativo nesses casos, desde que corretamente seguido pelo paciente.

PREVENÇÃO DE ALTERAÇÕES METABÓLICAS NO OUVIDO

De forma geral, ter uma alimentação saudável  e hábitos de vida equilibrados já são suficientes para evitar  tontura e zumbido de causa metabólica, mas seguem algumas dicas:

  1. Evitar jejum prolongado (mais de 3 horas) ;
  2. Evitar o consumo de alimentos ricos em açúcar refinado a fim de evitar picos da insulina; 
  3. Evitar dietas com  excesso de carboidratos;
  4. Consumir alimentos ricos em fibras (frutas e verduras) e preferir farinhas integrais, já que elas diminuem o índice glicêmico dos alimentos;
  5. Praticar atividade física regular, pois ela diminui a resistência à insulina e evita diabetes e obesidade;
  6. Controlar a ingestão de lactose (nos pacientes com intolerância, que representam grande parte da população adulta); 
  7. Reduzir o consumo de cafeína e xantinas presentes em refrigerantes a base de cola, chás pretos, café, guaraná, chocolate e energéticos; 
  8. Beber muita água.
  9. Evitar consumo excessivo de álcool;
  10. Não fumar;
  11. Evitar o estresse e praticar atividades de relaxamento, como meditação, yoga e  atividades físicas regulares;
  12. Dormir bem, que é essencial para produção adequada de vários hormônios.
  13. Fazer check-ups frequentes
  14. Manter o peso ideal

Agora, para quem quer saber melhor como as alterações metabólicas provocam sintomas auditivos e vestibulares, sugiro que continue a leitura, já que no texto abaixo eu vou explicar detalhadamente a fisiologia do labirinto e como as alterações metabólicas pode interferir nele. 

FISIOLOGIA DA ORELHA INTERNA

 O funcionamento da orelha interna depende sobremaneira da composição da endolinfa, líquido que está dentro do utrículo, sáculo, ductos semicirculares (estrutura dentro dos canais semicirculares) e  ducto coclear (parte da cóclea).

Labirinto membranoso
Fig 2- Labirinto membranoso- estruturas onde circula endolinfa.

A endolinfa é rica em potássio e pobre em sódio, e é secretada principalmente pela estria vascular através de um complexo sistema de capilares intra-epiteliais. A alta concentração de potássio na endolinfa é sustentada por uma bomba de sódio-potássio, muito ativa, mantida pela estria vascular, a qual depende de oxigênio, glicose e outras substâncias para gerar os potenciais endococleares (energia elétrica que estimula os nervos), cuja redução causa perdas auditivas. 

 A cóclea e os receptores vestibulares têm um mecanismo fisiológico muito sensível, uma intensa atividade metabólica e pouca reserva de energia armazenada. A seguir, falarei dos mecanismos metabólicos que perturbam a função da orelha interna. 

MECANISMOS METABÓLICOS QUE GERAM TONTURA E ZUMBIDO

O mecanismo mais bem estudado é o da excessiva concentração de insulina no sangue, que bloqueia a bomba de sódio-potássio, retendo sódio na endolinfa e carregando uma grande quantidade de água para o espaço endolinfático para compensar o aumento da pressão osmótica,  fenômeno descrito com hidropsia endolinfática- já explicado no post sobre doença de menière.

Devido a atividade constante dessa bomba de sódio-potássio e da falta de estruturas de armazenamento de glicose na orelha interna, ela é extremamente sensível a flutuação da glicose, tanto o excesso (diabetes e hiperglicemia) quanto a carência (hipoglicemia).

Já o zinco regula a função da bomba de sódio-potássio, interferindo na função das células ciliadas e na formação de radicais livres. Além disso,  regula receptores de glutamato e  de GABA , que são neurotransmissores- substâncias responsáveis por repassar informações entre os neurônios, nesse caso da orelha interna até o cérebro. O glutamato é excitatório, então aumenta a transmissão nervosa  e isso pode ser tóxico para os neurônios, causando alterações irreversíveis e mantendo um ciclo de estimulação central, que pode se manifestar como zumbido. Já o GABA é inibitório , então diminui a transmissão nervosa, essencial para impedir e controlar o zumbido e os efeitos do glutamato.

A má absorção intestinal dos açúcares representa outro distúrbio metabólico que pode causar problemas auditivos e/ou vestibulares. A deficiência das enzimas que quebram o açúcar impede sua absorção pelo intestino, provoca acúmulo no tubo digestivo, hipoglicemia e muita flutuação da glicemia (concentração de açúcar no sangue) além de cólicas, diarréia,  e gases. Alguns pacientes podem queixar de constipação por acúmulo de metano (gás gerado pela fermentação do açúcar não digerido) no intestino. A alteração mais comum hoje é a intolerância a lactose, mas outras doenças intestinais podem causar os mesmos sintomas, como doença de Crohn e doença celíaca. 

A elevação dos triglicérides e colesterol diminui o suprimento sanguíneo da orelha interna por aumento da viscosidade sanguínea, aumento da produção de fibrinogênio e aumento da agregação plaquetária, que causa isquemia local.

Os canais e transportadores iônicos da orelha interna são controlados por numerosos hormônios , como aldosterona e cortisol, produzidos pela glândula suprarrenal, e alterados pelo estresse,  hormônio tireoidiano e estrogênio. Portanto, níveis anormais desses hormônios (hipo e hipertireoidismo, doenças e tumores da glândula suprarrenal, estresse, alterações ovarianas, climatério e outras flutuações hormonais) podem alterar o funcionamento da orelha interna. 

O tabagismo pode ter efeito ototóxico, ou seja, lesão direta e morte das células da orelha interna.

O etilismo pode alterar a densidade da endolinfa, produzir disfunção transitória das células ciliadas externas e internas.

As  xantinas também devem ser mencionadas, e têm três principais alcalóides: cafeína (café), teofilina (chás) e teobromina (cacau), substâncias presentes em refrigerantes de cola, medicamentos analgésicos, anti-histamínicos etc. Apesar de o consumo excessivo de xantinas (acima de 250 mg/dia ou três cafés/dia) ser considerado como fator de piora para quadros de zumbido e tontura, há controvérsias e variações individuais.

Anemia de qualquer causa – como dieta com baixa ingestão de ferro, perda sanguínea importante, déficit de vitamina B12 ou ácido fólico-  causa diminuição de oxigênio na orelha interna, e por isso, tontura e zumbido. Vale lembrar que a vitamina B12 também é importante para produção de mielina, que é uma camada protetora dos neurônios,  e sem essa camada os neurônios passam a se desgastar mais facilmente. 

A baixa de vitamina D também já foi relacionada a maior prevalência de VPPB, mas ainda não se sabe por quais mecanismos. 

0 mecanismo de bomba de Na/K responsável pelo potencial endococlear é dependente de energia e o ouvido interno não estoca energia. O jejum prolongado (acima de três horas) está relacionado a déficit energético e alteração no potencial endococlear, o que pode piorar o zumbido.

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Author
Dra Kenia Chaves

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