Doença e síndrome de Menière

Neste post vou falar sobre causas, sintomas, diagnóstico e tratamento da doença de Menière, uma das labirintopatias crônicas mais comuns e  incapacitantes do nosso meio. Para um texto mais resumido, clique aqui.

Sintomas da síndrome de Menière

A doença de Menière se manifesta através de  vertigem- tipo de tontura com sensação de rotação, seja sensação que a pessoa está rodando no ambiente ou que o ambiente está rodando em volta da pessoa- associados à perda auditiva, a zumbido e a sensação de ouvido entupido, em episódios recorrentes. Esses últimos acontecem, por definição, em apenas uma orelha. Os sintomas ocorrem todos juntos e em crises, cuja duração pode variar de minutos até horas, mas  não chegam a durar dias. No início, os sintomas somem completamente entre uma crise e outra. Com a progressão da doença, a perda auditiva e o zumbido se tornam permanentes, assim como um tontura leve, sem vertigem, mas com sensação de desequilíbrio, principalmente nas mudanças de posição (deitar, levantar). 

Para alguns pacientes, o sintomas mais incapacitante é a tontura, para outros, o zumbido, mas também pode ser a perda auditiva. 

Causas da Síndrome de Menière

A causa desses sintomas é o aumento do volume do líquido, chamado endolinfa, dentro da cóclea e dos órgãos vestibulares. Esse fenômeno é denominado hidropsia endolinfática.

Fig 1- hidropsia endolinfática

Fig 1- Hidropsia endolinfática

A hidropsia tanto pode ocorrer de forma idiopática (sem causa específica), situação que chamamos de doença de menière, como pode ser secundária a outras doenças, como hipotireoidismo, diabetes, aumento de insulina (hormônio que controla a glicose, ou seja, açúcar do sangue), aumento de colesterol ou triglicérides, erros alimentares,  insuficiência  da glândula suprarrenal ou hipófise, sífilis,  traumas, infecções virais, tumores, anemia, doenças auto-imunes, malformações da orelha interna e outras. Essa última situação é chamada de síndrome de menière, que pode ser completamente revertida com o tratamento de sua causa. Essa diferenciação é muito importante no tratamento dessa condição.

Diagnóstico da doença de Menière

O diagnóstico é basicamente clínico, ou seja, depende da história dos sintomas e alterações presentes no exame físico do paciente, associados a poucos exames, principalmente audiometria. 

Os critérios diagnósticos, definidos pela Barany Society, em 2015 são:

Doença de menière definida:

-Dois ou mais episódios de vertigem, cada um durando de 20min a 12h;

-Perda auditiva neurossensorial de alta e média frequência  em uma orelha documentada em audiometria em pelo menos uma ocasião ou após um episódio;

-Sintomas auditivos flutuantes ( perda auditiva, zumbido ou sensação de ouvido entupido);

-Não mais bem explicado por outra doença vestibular.

Doença de Menière provável

-Dois ou mais episódios de vertigem, cada um durando de 20min a 24h;

-Sintomas auditivos flutuantes ( perda auditiva, zumbido ou sensação de ouvido entupido);

-Não mais bem explicado por outra doença vestibular

Como se pode notar, na doença provável, a perda auditiva não é documentada em exames. Portanto, a audiometria é exame essencial, embora outros exames possam ajudar, principalmente nos casos de dúvida diagnóstica. São eles:

  • Eletrococleografia(EcohG): exame que faz algumas medições do nervo coclear para tentar demonstrar a hidropsia endolinfática. Deve ser feito durante a crise de tontura, mas tem acurácia relativamente baixa, por dificuldades na execução do exame, já que idealmente deveria ser feito com uma agulha que passa pela membrana timpânica.
  • Eletronistagmografia: exame que o estuda o nistagmo (movimento do olho rápido e repetitivo presente nas doenças do labirinto). Deve ser feito fora do período da crise porque piora a tontura.
  • Potenciais evocados vestibulares(VEMP): avalia o funcionamento do nervo vestibular, assim como a EcohG, mas de forma não invasiva e com detecção mais precoce das alterações.
  • Teste do impulso encefálico (v-HIT): estuda um reflexo entre o olho e o labirinto, chamado de reflexo vestíbulo-ocular, que pode estar diminuído durante a crise de tontura. 
  • BERA/PEATE (Potencial Evocado Auditivo do Tronco Cerebral): exame empregado para investigar causas de perdas auditivas do tipo neurossensorial e principalmente unilateral.

São recomendados, ainda, exames de sangue e exames de imagem ( tomografia e ressonância da orelha) para pesquisa de uma doença de base, que pode ser tratada e reverter completamente os sintomas, ou para excluir outras enfermidades.

Tratamento da doença / síndrome de Menière

O tratamento é dividido em tratamento das crises de tontura e tratamento profilático (evitar crises e progressão da doença).

O tratamento das crises envolve medicações, chamadas de supressores vestibulares, com flunarizina, meclizina, dimenidronato, entre outros. Estes devem ser usados pelo menor tempo possível, já que impedem a compensação vestibular (recuperação do equilíbrio pelo próprio sistema vestibular). 

O tratamento preventivo pode envolver medicações, principalmente a betaistina e os diuréticos tiazídios (hidroclorotiazida), mas também envolve mudanças alimentares, principalmente aumento da ingesta de água ( 35ml/kg/dia), diminuição da ingestão de sal, restrição de estimulantes labirínticos (principalmente xantinas, presentes no chocolate, e cafeína, presente em café, chás, suplementos alimentares), restrição de álcool e nicotina, restrição de ingesta de glutamato monossódico (substância presente na maioria dos produtos industrializados ultraprocessados), além do tratamento do estresse e da fadiga (que pode envolver apoio psicológico). Também é realizada a reabilitação labiríntica, que são exercícios que estimulam e treinam o equilíbrio, e objetivam a compensação vestibular. 

O uso de corticóides (através de comprimidos ou injeções), por sua vez, é reservado aos pacientes com quadro mais intenso ou secundários a doenças do sistema imunológico. 

Também há tratamento cirúrgico, reservado para casos incapacitantes, e pode ser feito por injeção de medicamentos (corticóide, que não atrapalha a audição, e gentamicina, que pode alterar a audição) dentro da orelha, descompressão do saco endolinfático (estrutura que armazena a endolinfa, com objetivo de diminuir a hidropsia endolinfática),  neurectomia vestibular e até labirintectomia. Esses últimos dois procedimentos são considerados ablativos, por causar destruição da estrutura ou função do ouvido, e serem irreversíveis. Portanto, raramente são realizados.

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